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sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Invenções

Porque lhe doía a ignorância, inventava suas estórias para explicar o que simplesmente era. Desconfiou por um momento que havia mais mistérios inventados do que imaginava. E tinha uma boa imaginação para explicar cada um deles e preencher o vazio que deveria ser preenchido com o saber que lhe faltava.

E quando tudo parecia em ordem, danava a olhar o avesso do mundo.

Tudo que era simples, só para que surgissem novos desafios, como pequenos insetos dissecava com um cuidado peculiar, como se pudesse disfarçar a crueldade de desnudar as intimidades dos mistérios.

Desafiava a natureza para descobrir os truques. A magia do truque, o lúdico, a fantasia, está justamente no desconhecer que tanto aguçava sua curiosidade.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Estrela



Olha, Iaiá, a estrela se espreguiçando toda. Pensa que o mar não vê que o que ela quer é abraçar a praia inteira que nem ele.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Canções


Quero canções que me arremessem ao chão, penetrem em todos os meus poros e me inundem os olhos de lágrimas de uma saudade da qual desconheço a origem, mas que apesar de todo o atrevimento em desnudar-me, me consumam tão somente por sua doçura escancarada.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Sonho

Ah, Iaiá.
A diferença é que o sono falece. E o sonho é a pura alma, irreverente. Flutua por cima dos telhados, voa entre as árvores, e puxa o pé dos meninos à noite. Depois foge, se esconde pelos lugares para não ser perturbado. Lá ele lê, brinca, ouve música. E quando se cansa, volta ao sono e mergulha lá dentro dele. É Iaiá... E aí você acorda. O sonho é o que te devolve à vida.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Palco


O indissolúvel é tão desonesto quanto o unânime. Transcendia para acordar no palco das suas transgressões. O único palco onde não atuava.

domingo, 28 de outubro de 2007

Jaqueta


Não há nada melhor na vida que essa essência de flor que desperta na tua jaqueta... Ah, Iaiá... Visto teu abraço até nos dias quentes...

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Inspirações

Apreciava com olhos infantis o inerente talento para o inacreditável que
costumava privilegiar as minúsculas criaturas. Admirava ainda mais os poetas, que com a tamanha sutileza de suas pequenas poesias abriam baús de segredos já esquecidos, nos sótãos da sua meninice. Era o suficiente para se entregar aos prazeres prolongados e intensos, que a arrebatavam pelas tardes e pelos sonhos das noites seguintes. Depois suspirava de olhos fechados, agradecida e satisfeita. Era primavera e seus jardins floresciam de inspirações. Se tivesse oportunidade, explicaria aos caracóis de Guimarães Rosa... Para invadir as casas alheias - sem pedir mil desculpas - somente através dos perfumes das flores desses sedutores ladrões de mistérios da alma.

domingo, 14 de outubro de 2007

Sagrado

Ele era daqueles que tomavam sorvete e, sem perceber a boca lambuzada, continuavam conversando sem se incomodar. E ela não, não deixava nem rastro. Tomava o sorvete, que pingava no colo, no tapete, escorria por entre os dedos, e ela lambia os dedos, esticava a língua enxugando em torno da boca, quase na ponta do nariz. E quando acabava, danava a lamber os lábios dele. Casavam certinho. Quase um pacto, um acordo tácito. A hora do sorvete era sagrada.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Inquietante

Manifestava há tempos o inquietante pulsar da vida, diante de certezas como a de que jamais lerá todos os livros. Mas ignorava o óbvio, o pulsar era pungente. O tempo corria, ela saiu de casa apressada. Como se pudesse sorver o mundo naquela manhã.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Olhos

Daqueles olhos que me contam das saudades, que por não se conterem se fogem pelos cantos, escapam às beiras. São olhos de uma doçura triste mas firme que cerram em sensações e se entregam eternamente em suas íntimas releituras a fim de saciar, inútil, sua sede, seu desejo, seu orgulho, seu incêndio.

Portas


Minha chave, tua porta.
E um desejo sem fim de escancarar-te.

Tédio


No congelar dos tempos onde dormem as criaturas imortais, me entorpece a leve angústia da iminência.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Poder

Não podia mensurar o poder que tinha nas mãos, mas conscientizara-se da sua existência sólida e permanente. Embora não soubesse ao certo o que fazer com ele, e talvez nem o quisesse tanto, mesmo se cercada daquelas incertezas de outrora que tanto lhe pertubaram a mente nos minutos que antecederam seu sono. Mas após suas doses diárias de conhecimento e suas horas de devaneios, aprendera a ter a idéia clara da sua unicidade quando afastava-se de si mesma para amenizar suas peculiaridades. Enxergava-se peça, parte, espécie. Não havia mais o mundo para si, acabara por se misturar toda a ele, entre seus iguais dos quais poderia sentir qualquer movimento. Podia dançar com eles. Eis seu poder inerente.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Desacertos


Todo fim de tarde, me sorria leve querendo saber dos meus desacertos. Brotava tímida aquela sede de aprender a desacelerar o tempo e a andar tranquila no sentido contrário do mundo. Desacertar é um dom - pensava consigo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Onda

Não tem onda grande que meta medo assim, iaiá. E nem tempestade forte. Não tem, porque onda é espuma na areia e tempestade é esse punhado de furinhos nela. E o vento, olha lá, é essa dança bonita dos coqueiros! É, eu sei. Ficou assim bem depois que o mar entrou todo dentro dessa concha, ouve.

Nós


Aquieta sem ardil, jogos ou estratagemas. Aguarda o desatar lento de nós. Daquele jeito que a gente sabe que acontece, mas nem por isso cansa de ficar olhando. Que nem final de novela das oito. Que nem imagem da queda das torres gêmeas, todo onze de setembro.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Além

Nas fronteiras que me separam do mundo, onde não há lugar para as gentilezas etéreas, basto-me. Me preencho de todos os vazios além das absolutas incertezas que me habitam por dentro. Além do riso de agora que eu me acho e me ultrapasso e me venço de todas as barreiras de onde eu não quero e não preciso ir; além do que eu sou e do que eu não sou mais; além de mim e da minha inteireza original. É a completude infinita na coragem que é a ausência das minhas defesas. A descoberta e a invasão súbita. É a concretude. É o reencontro.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Arte


A solidão pede a arte e o olhar da obra-prima. É o reflexo da essência, é o entendimento velado. É o palpável da existência. É companhia e o cúmplice.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Certezas

Suspeitava que qualquer certeza cristalizaria sólida e silenciosa, encerrada em monótona prisão. Não queria morrer em vida e por isso não se atreveria à decretar conclusões sobre seus pensamentos. Sentia ela que todos os caminhos eram imprevisíveis mesmo que sua experiência gritasse o oposto. Não havia respostas certas e, por isso, várias vezes agiria em desacordo com suas vozes, seja por desobediência, irreverência ou por simples curiosidade. Por isso, surpreendia-se então, a cada instante. Percebia claramente a dificuldade em quebrar os hábitos e rituais que por tempos a enquadraram nesses tantos padrões previsíveis do seu comportamento. Pensava consigo que era preciso livrar-se então daquilo que fora herdado e incorporado, por convenção, dever ou interesse de minorias, enquanto sofreria as inevitáveis influências das certezas impostas ao longo da sua travessia.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Sonhos

Flagrava a criança sonhando, distraída, e ria das suas mais insensatas certezas. Sabia que não haveria o menor fundamento e chance de concretude, mas poderia ser o que quisesse na sua realidade íntima. Pedia silêncio a si mesma mas não se preocupava tanto. Não é sono eterno. E parecia infinita a liberdade de ter todas aquelas sensações ao seu alcance, sempre que as quisesse. Por fim, com um breve sorriso, suspirava, exalando de si mesma as fantasias que vivera. Era assim que acordava para a Vida.